5
setembro

Uma história para lembrar que o verdadeiro amor nunca falha.

Fernanda e Renato se conhecem há seis anos. Da amizade brotou a paixão. Ela, trabalhadora de uma gráfica. Ele, operário da construção civil. Tinham uma vida simples, longe de regalias e do luxo das famílias poderosas. Pobres, e sem recursos, construíram sua casa aos fundos do lote dos pais dele. Um lar sem tijolos. Apenas com paredes de compensados. Mas no seu interior, um teto feito à base da honestidade e da sinceridade de um grande amor. Mas há 11 meses, a vida parou. No dia 5 de outubro de 2012, numa ação inexplicável, um homem drogado atirou contra Renato. O disparo no pescoço o deixou tetraplégico. A partir daí, tudo mudou, com exceção da paixão e do amor.

Fernanda Nalon, aos 20 anos de idade, é obcecada pelo companheiro. Tinha apenas 14 quando uma paixão avassaladora a uniu com Renato. Destinos cruzados, vidas passadas, seja lá o que tenha sido, foi forte demais. Renato Tarachuk tem hoje 27 anos. Sempre foi pobre, mas honesto. Desde que ajoelhou-se a ela, sabia que o futuro seria ao seu lado. E foi desta maneira, que numa tarde de domingo, no município de Bituruna – Sul do Paraná – os dois saíram juntos para ir até a chácara de um amigo. Estavam namorando, rindo, se distraindo, quando aquele homem drogado atravessou seus caminhos. Armado, apontou o revólver e, sem mais nem menos, numa grande infelicidade, disparou contra o pescoço de Renato. Após ser atingido, ainda saiu do carro e caminhou por alguns metros. Mas naquele instante, a vida tomaria um rumo jamais imaginado.

Em estado grave, Renato conseguiu uma vaga na UTI do Hospital Cajuru, da Pontifícia Universidade Católica, de Curitiba. Lá permaneceu sob os cuidados de uma equipe médica dedicada, contradizendo hoje, o que parte da população brasileira condena sobre médicos sem instrução, mercenários ou até, sem caráter humanitário. Foram 11 meses numa batalha entre a vida e a morte, com inúmeras paradas cardíacas. Vivendo entre a esperança e a dúvida, entre as lágrimas de dor, e de felicidade. Mas na guerra fria da vida, sobrou e prevaleceu o amor.

Quase um ano dentro do hospital, Fernanda viajou poucas vezes à sua casa. Abriu mão de sua vida particular para permanecer ao lado do cara que amava. Naqueles corredores sem fim, não conseguiu enumerar suas orações. Enquanto rezava, Renato batalhava pela própria vida. Foi um guerreiro por si só, como dizem os médicos. “Somos muito apegados a Deus. Não fosse ele, Renato não estaria vivo”, acredita Fernanda.

Mas diante de tanto sofrimento, e do dia em que ouviu as duras e frias palavras de que não mais andaria, Renato se revoltou. Ele não consegue perdoar aquele sujeito que disparou o gatilho. Renato é mais uma vítima da violência urbana. Foi mais uma estatística das atrocidades cometidas num país sem leis severas, não respeitadas, não cumpridas. “Queria que aquele homem estivesse no meu lugar, passando por tudo o que estou vivendo. Ele acabou com minha vida”, afirmou.

Um casamento no hospital

Depois de 11 meses internado, Renato teve alta esta semana. Ele está feliz demais. Afinal, nos últimos dias conseguiu sua aposentadoria, teve alta médica e, ainda, casou-se dentro do próprio hospital. A coisa foi mais ou menos assim: sensibilizados com a paixão do casal, a família de outro interno mobilizou médicos e enfermeiros para a cerimônia. Então de uma “vaquinha” surgiram as alianças, a festa, o vestido de noiva, o terno, o salão. As enfermeiras ainda organizaram o chá de panela, também no hospital. Um pastor fez a cerimônia. Teve padrinhos, festa animada, salgadinhos e muita emoção.

“Foi tudo o que queríamos. Não tínhamos condições, e recebemos de coração. Agora voltamos a nossa casa, casados”, disse Fernanda. A equipe médica também participou da cerimônia. Afinal, o casal transformou o hospital em sua segunda casa, ficando a relação médico paciente quase familiar.

Um dos profissionais mais próximos de Renato foi o médico intensivista Juliano Gasparetto. “Há mais ou menos um ano o Renatão ensinou a toda equipe o significado da palavra superação. Após lutar contra o que seria considerado impossível para muitos, ele teve que reaprender a respirar novamente, e conseguiu”, disse. Gasparetto lembra que foi alvo de muitas brigas com o paciente, principalmente, no início. “Imagine a sua revolta depois de saber que não iria mais andar. E a primeira pessoa a vê-lo todos os dias era eu. Então era eu quem ouvia sua indignação”, lembra. Numa metodologia de humanização, o casal participava de todas as decisões do tratamento. “Eles opinavam e interagiam o tempo todo. Inclusive, a família ficava na UTI. Participavam de tudo”, explica o médico.

Renato acaba de deixar o Cajuru. Devido ao ferimento da bala, terá que viver com traqueostomia. Para melhorar sua qualidade de vida, ganhou um respirador, que o acompanhará onde for. Segundo ele, mesmo brigando inúmeras vezes com o intensivista, Gasparetto está além de um simples médico. “É um anjo da guarda que carregarei comigo pro resto da vida. Me ajudou em todas as decisões. É um grande profissional. Um grande médico. Um amigo”, disse.

Por fim, Fernanda e Renato agora retornam à sua casa. Saúde é o que todos desejam. Na casinha simples de compensados, lá permanecerão. Juliano Gasparetto continuará sua jornada diária entre lençóis, aparelhos e pacientes sobre as camas de hospital. Enquanto isso, na cadeia de Guarapuava, repousa o indivíduo que ocasionou toda esta história. Apenas mais uma vítima do comércio de drogas. Um usuário em potencial. Um reflexo do desleixo e descaso da violência urbana das cidades brasileiras. Em pouco tempo, ele estará nas ruas novamente. E quantos Renatos ainda pagarão por um país sem leis mais severas?

O desabafo de um médico

“Após inúmeras paradas cardíacas por disautonomia, um desmame ventilatório que gerava discussões e “brigas” entre eu e o Renato, meus residentes e meus amigos da fisioterapia, sempre comigo “rabugenteando” é claro, dias, noites e fins de semana o tratando, hoje mais uma lição e duas palavras simples: amor e um muito obrigado dito pelo Renato e pela Fernanda, foram o suficiente para que eu repensasse vários dos meus conceitos e o motivo pelo qual saímos de casa todos os dias para trabalhar. Superação e muito amor pelo que faz; porque temos o treinamento para fazer o que ninguém faz – devolvemos as pessoas que já estiveram entre a vida e a morte para suas vidas, para serem felizes.

Não há medicina, não há o menor sentido no que fazemos, se a palavra humanização não for a regra número um. Apesar de sermos uma unidade de trauma e termos tratado vários pacientes com trauma raquimedular, o Renato, pra mim, é especial.

Depois de a mídia tentar jogar a Medicina Intensiva na lama com a sensacionalista história do Hospital Evangélico, hoje tivemos a oportunidade de mostrar o outro lado do que nós fazemos no dia-a-dia. Não foi na rede privada, Einstein ou no Sírio, foi no SUS mesmo; o mesmo SUS que o Governo tenta dizer que os médicos brasileiros não querem trabalhar. Parabéns a todos os profissionais do time do Hospital Universitário Cajuru e ao ator principal desta linda história, o Renato”.

Lex Kozlik Fotografia / Fonte Itribuna

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