6
janeiro

Tristeza faz bem

Ninguém consegue ser feliz 24 horas por dia. Estar triste é chato, sim, mas ajuda no equilíbrio da mente e do corpo. O segredo é saber reagir aos momentos debaixo-astral até mesmo para ser alguém mais feliz

Por que ficamos tristes?

Tristeza é um sentimento que responde a estímulos internos, como recordações, memórias, vivências; ou externos, como a perda de um emprego ou de um amor. Não se trata de uma emoção, que é uma resposta imediata a um estímulo. No caso da tristeza, nosso organismo elabora a sensação e amadurece-a antes de manifestar. É uma resposta natural a situações de perda ou de frustrações, em que são liberados hormônios cerebrais, chamados neurormônios, responsáveis pela angústia, melancolia ou coração apertado.

Como ninguém recebe somente notícias boas o dia todo, não há como fugir do estado de tristeza. O que dá para mexer é no significado dos estímulos e assim fazer com que ela apareça em menor grau de intensidade. “A tristeza é uma resposta que faz parte da nossa forma de ser e estar no mundo. Passamos o dia flutuando entre pólos de alegria e infelicidade”, afirma o médico psiquiatra Ricardo Moreno, coordenador do Grupo de Doenças Afetivas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo. Se passamos o dia entre esses pólos de flutuação, é bom não levar tão a sério os comerciais de margarina em que a família é linda, perfeita, alegre e até os cachorros parecem sorrir o tempo inteiro. Não apenas na televisão, mas vivemos uma época em que a felicidade constante é praticamente um dever de todos. O físico, matemático e filósofo francês Blaise Pascal é autor de algumas das mais famosas reflexões sobre o tema. “A felicidade é o motivo de todas as ações de todos os homens, inclusive dos que vão se enforcar”, escreveu no século 17. O desejo desenfreado de querer ser feliz ganhou até status de direito social a partir do movimento iluminista, no século 18, cuja filosofia influenciou a Revolução Francesa e a independência dos Estados Unidos. Na Constituição americana, a busca da felicidade é assegurada como um “direito inalienável” dos cidadãos. “Quando passo por momentos de melancolia sem saber o porquê, me sinto até culpado. Afinal, como um sujeito bem-sucedido profissionalmente, com namorada e uma família linda, poderia se sentir triste?”, diz o analista de sistemas Guilherme Azevedo,de 26 anos.

Felicidade tirana

É fato: a obrigação de ser feliz o tempo todo está virando uma obsessão a ponto de causar angústia. “A felicidade é efêmera por definição. Por isso, as pessoas que só pensam nela sofrem muito mais e se distanciam das pequenas alegrias da vida”, afirma o escritor francês Pascal Bruckner, autor do livro A Euforia Perpétua (Bertrand Brasil, 2002), no qual critica o que chama de “tirania da felicidade”. “Hoje em dia, sofre-se também por não querer sofrer, do mesmo modo que se pode adoecer de tanto procurar a saúde perfeita.” Não é à toa que os antidepressivos são um sucesso arrebatador nas farmácias. Para se ter uma idéia, em 2000, o Prozac, propagado como a “pílula da felicidade”, rendeu 2,6 bilhões de dólares aos cofres do laboratório fabricante. “É bom lembrar que essas drogas não fazem efeito em pessoas normais, ou seja, em quem não sofre de depressão. As substâncias antidepressivas não são necessariamente estimulantes”, diz o psiquiatra Eduardo Ferreira-Santos, do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo.

Evitar a tristeza vem sendo um ideal tão perseguido que está chamando a atenção de pesquisadores do mundo todo. A conclusão: estar infeliz é mais do que natural, é necessário à condição humana. Segundo o psicólogo americano Martin Seligman, da Universidade da Pensilvânia, a tristeza é um dos raros momentos que nos permite reflexão, uma volta para nós mesmos, uma possibilidade de nos conhecer melhor, de saber o que queremos, do que gostamos. E somente com essa clareza de dados é que podemos buscar as atividades que nos dão prazer, isto é, que nos fazem felizes.

Ferreira-Santos concorda. “A tristeza com relação a algum fato nos leva a pensar sobre ele. Pensamos em soluções, ou seja, trata-se de um mecanismo psíquico que nos dá condições de reflexão sobre nós mesmos e até mesmo para evitar a repetição do erro.” Assim como a dor e o medo, a tristeza nos ajuda a sobreviver. Sim, porque se não sentíssemos medo, poderíamos nos atirar de um penhasco. E se não tivéssemos dor, como o organismo poderia nos avisar que algo não vai bem?

Insatisfação passageira

O pesquisador americano Robert Wright acredita que a tristeza tenha sua participação até mesmo no processo evolutivo. “Se a alegria que vem após o sexo não terminasse nunca, os animais copulariam apenas uma vez na vida”, diz Wright. Para ele, a felicidade é propositadamente projetada para escapar – e dessa forma corremos atrás daquela maravilhosa sensação que sentimos anteriormente. Um estudo feito em 1978 com ganhadores da loteria mostra o caráter momentâneo da felicidade: os sortudos tiveram picos de alegria logo após a premiação, mas tenderam a voltar aos níveis anteriores pouco tempo depois. O inverso é verdadeiro. No mesmo estudo, pessoas que ficaram paraplégicas em acidentes recuperaram seus níveis de felicidade dois meses depois. Ou seja: a tristeza, quando é um sentimento saudável e natural da vida, tem fim. Se não passar, aí é bom se preocupar, pois pode virar depressão, doença que afeta cerca de 20% da população mundial.

“Mas tem muita gente que confunde as coisas, diz que está deprimido porque perdeu o emprego ou brigou com a namorada. Isso não é depressão, é tristeza. Depressão é uma síndrome e nunca vem isolada”, afirma o psiquiatra Ricardo Moreno. Foi o que aconteceu com a administradora de empresas Patrícia Menziane, de 25 anos. “Depois de perder um bebê, me senti muito mal. As pessoas me cobravam uma volta por cima, me incentivavam a sorrir, mas não dava. Demorou para descobrir que eu não era infeliz, apenas estava infeliz”, conta.

Um dos pilares do budismo é a impermanência, segundo a qual tudo é transitório, em constante mudança. Para Dalai Lama, se as coisas podem ficar ruins de um momento para outro, as ruins também podem ficar boas rapidamente. O ideal é aprender os recados da tristeza enquanto ela não vai embora.

Impulso criativo
Alguns artistas e intelectuaisviveram o auge da produçãonos momentos de melancolia

O que seria da música se seus compositores não tivessem passado por terríveis dores-de-cotovelo? Provavelmente, não existiriam os mais belos sambas, valsas, tangos, chorinhos e afins que tanto fazem bem aos nossos ouvidos. E essa constatação vale também para outras formas de expressão artística.

O compositor alemão Ludwig van Beethoven redigiu a maior parte de suas sinfonias, incluindo a “Nona”, em momentos de profunda tristeza – acredita-se que o sentimento era alimentado pela sua precoce surdez e por três amores impossíveis. Outro clássico alemão, Franz Schubert, um melancólico de carteirinha, compôs em1822 a maravilhosa “Oitava Sinfonia”, obra tão angustiada que ficou inacabada.

Na literatura, o poeta português Fernando Pessoa escreveu a maioria de seus textos quando se sentia ensimesmado – prova disso é que assumia diversas personalidades literárias.

Um estudo da Harvard Medical School, de Boston, publicado em 2003, examinou a criatividade de 17 pacientes com depressão e concluiu que eles tiveram um melhor desempenho criativo do que pessoas sem histórico de doenças psíquicas. Isso indica que até mesmo a tristeza que se torna patológica pode ter lá sua serventia.

Fique atento
Ao contrário da tristeza natural, a depressão é uma doença séria que exige ajuda médica. Veja alguns sintomas da depressão

• Melancolia profunda e incessante por mais de 15 dias consecutivos.

• O sentimento é incapacitante, ou seja, impede ou dificulta a execução das atividades normais.
• Perda de interesse em atividades que antes davam prazer, incluindo sexo.
• Dificuldade de raciocínio e concentração.
• Irritabilidade e ansiedade.
• Fadiga constante e perda de energia.
• Alterações nos hábitos de sono, como excesso de sonolência ou insônia.
• Pensamentos freqüentes sobre morte e suicídio.
• Mudanças no apetite.
• Tendência ao isolamento.

por Texto Mariana Sgarioni / fonte: Superinteressante

Publicado em ARTIGOS, AUTOCONTROLE, MENTE por Rodrigo Oller. Marque Link Permanente.


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