15
julho

Sobre amor, perda e memória

Dia a dia, é comum nos depararmos com perguntas sobre a morte e o que há após ela. O que acontece quando a gente morre? Para onde vai a nossa alma? Existe algum tipo de vida após essa? Muito provavelmente, só conseguimos encontrar as respostas através da fé. Cada religião do mundo tem algo belo e profundo a dizer a respeito desse tema. Algumas religiões, inclusive, pautam toda a sua doutrina em cima da morte. Isso acontece por que, independente do que cada pessoa crê, a dúvida e o temor estão instalados em todos nós. Cabe, portanto, ao campo espiritual, qualquer que seja, buscar e trazer conforto.

Todavia, existe outro tipo de pergunta que aflige os vivos e os sobreviventes. São questionamentos sobre a própria vida e que parecem passar despercebidos das rodas de conversas, das discussões religiosas e dos pensamentos diários. São perguntas que nos pegam no silêncio e na solidão. Por que as pessoas que amamos morrem? Por que dói tanto? Como consigo viver depois da perda? Dessa vez, as respostas não estão prontas em textos sagrados ou ensinamentos antigos, infelizmente.

Isso se deve, única e exclusivamente, porque estamos falando de sofrimento. E o sofrimento, sempre, é pessoal. Sofrer pela falta, sentir saudades, enlutar-se diz respeito apenas a quem perdeu e a quem foi perdido. Essa é uma relação tão única, tão intensa e particular que resta apenas ao enlutado descobrir em si mesmo um caminho pelo qual ele pode seguir adiante. Mas é importante lembrar, para nós que ficamos, que seguir adiante não significa esquecer. Muito pelo contrário! Viver depois de uma perda tão devastadora significa recordar.

O luto é o preço por ter amado. Quando falamos de perda e saudade, no fundo estamos falando de algo muito maior: o amor. Talvez, a melhor porta pela qual devemos seguir adiante os nossos caminhos, é lembrarmos sempre que amamos. Sofremos por que amamos. E nunca deixamos de sofrer. A dor sempre nos acompanhou, é um recurso natural para indicar quando algo não está confortável. O frio nos traz dor, uma má postura dentro do carro também, isso só para citar alguns exemplos.

Percebe-se, contudo, que a maior fonte de sofrimento hoje em dia é viver em um mundo onde remédios e aparelhos prolongam a vida, onde redes virtuais permitem um alcance antes impensável e onde, especialmente, cuidar do corpo e da felicidade é propaganda de sucesso. Dentro desse contexto, sofrer ficou em segundo plano. Não há mais espaço para falar sobre o fim de um namoro, ou sobre o emprego perdido, ou mesmo sobre um membro amputado. Coube aos enlutados sofrer em silêncio e solidão.

Mas a verdade é que a dor da falta nunca é em vão, nunca é uma vergonha ou fraqueza. Ela é memória, é amor. Seja o amor por um companheiro quadrúpede e peludo que sempre lhe demonstrou gratidão, seja o amor por um familiar com o qual você aprendeu a viver ao longo de sua vida. O amor é o começo de todas as nossas relações, nascemos de um ato de amor. Da mesma forma, é amor que encontramos escorrendo de nossos olhos durante as despedidas.

Portanto, se não há uma resposta para a razão de precisarmos passar por tanto sofrimento, ao menos temos uma resposta do motivo por trás desse sofrimento: porque valeu a pena! Agora, quanto ao porquê de ter valido a pena, só você pode me responder.

Escrito por Eliandro A. S. Santos
Psicólogo e Psicoterapeuta especializado em Luto

Publicado em ARTIGOS, AUTOCONTROLE por Rodrigo Oller. Marque Link Permanente.


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