28
fevereiro

Porque ficamos deprimidos

Ao considerarmos um violino com suas cordas devidamente afinadas, saberemos que elas vibram e emitem sons. Um músico habilidoso saberá tirar delas musicas alegres, musicas tristes, músicas que nos convidam a dançar ou simplesmente relaxar. Mas, se as cordas estiverem desafinadas, os sons ficarão desconexos e sem sentido. Se estiverem frouxas e flácidas, não será possível obter sequer um som, por mais habilidoso que seja o músico – o instrumento não responderá ao toque.

Assim fica emocional e fisicamente a pessoa deprimida.
Uma pessoa saudável se sente bem em relação a sua vida, seus relacionamentos e seus movimentos na maior parte do tempo. Ocasionalmente, seu prazer alcança a alegria, e pode chegar ao êxtase. Ocasionalmente também sente dor, tristeza, desgosto, desapontamento. Mas não ficará deprimida. O que distingue o estado depressivo de todos os outros estados emocionais é que a pessoa deprimida é incapaz de reagir, mesmo que a situação mude e que a causa de sua condição seja removida. Em casos severos, ela pode ficar horas fitando o nada, ou ficar na cama boa parte do dia, incapaz de encontrar energia para se levantar. Mas, muitas vezes a depressão sequer é percebida em um primeiro momento, dificultando sua identificação e tratamento.

Existe uma crença generalizada, relacionada às doenças emocionais, de que o problema está inteiramente na cabeça, ignorando a realidade de que a vida é um fenômeno físico, e a individualidade e a personalidade de uma pessoa é indiscutivelmente determinada pelo seu corpo. Sob esse ponto de vista, não pode haver distúrbio mental que não seja também físico.

Cada pessoa é única e foi formada por inúmeros e diferentes fatores, assim como sua doença. Mesmo com todos os recursos existentes atualmente, nem todos os pacientes reagem à terapia da depressão. Mas, independente da resposta que o paciente tenha, existem certas características comuns a todas as reações depressivas. Na forma comumente encontrada da depressão, as pessoas perdem o entusiasmo pela vida. Seguem (sobre)vivendo de uma forma maquinal, rígida e inflexível, e isso se manifesta de forma clara e direta em seus corpos, que estampam essa rigidez e inflexibilidade. Sem o perceber, vivem no passado e no futuro, negando o presente. A mente de uma pessoa que tenha experimentado a sensação de rejeição, desamparo e impotência quando era criança projetará no futuro, através de fantasias e devaneios, uma imagem na qual é poderoso e controlador, tentando anular uma realidade dolorida e inaceitável para ele.

Grande parte de sua energia será gasta na elaboração dessas imagens e sonhos, fazendo com que perca o contato com a experiência original e sacrifique o presente, tentando realizar essas imagens impossíveis. Não perceberá sua rigidez muscular e as conseqüentes limitações que esta impõe à sua habilidade de realizar-se como pessoa no presente. Como seu interesse está no futuro, quando acredita que superará suas mágoas, não percebe a limitação de seus movimentos e a inibição de sua respiração, desconsiderando a vida que se faz presente em seu corpo. Outro fator comum nas reações depressivas das mais diferentes personalidades, está relacionado a desconexão entre os objetivos perseguidos e as necessidades básicas das pessoas como seres humanos.

Uma dessas necessidades é o amor – todos precisamos de amor e de sentir que esse é aceito e em certa medida, retribuído. Pessoas que são amadas não ficam deprimidas. Outra necessidade básica desconsiderada é a auto-expressão – que é em síntese, a expressão dos sentimentos. Os olhos opacos, a voz monótona e a mobilidade reduzida da pessoa deprimida bloqueiam em grande parte as vias pelas quais os sentimentos são expressos.
A liberdade é mais uma das necessidades básicas do ser humano que tem sido esquecida. Não a liberdade total, mas aquela que permita expressar e ter voz ativa no estabelecimento do que diz respeito a cada um. E sem liberdade, a auto-expressão é impossível.

A pessoa deprimida é prisioneira de barreiras inconscientes de “devo” e “não devo” que a limitam e subjugam o seu espírito. Nessa prisão ela arquiteta estratagemas para obter sua liberdade e sonha com um mundo onde sua vida será diferente. Esses sonhos sustentam seu espírito, mas ao mesmo tempo evitam que ela se confronte de forma realista com as forças internas que a conectam. Mais cedo ou mais tarde, o esquema falha, a ilusão se desfaz e ela tem que encarar sua realidade frente a frente, precipitando uma depressão.
Em perseguição às nossas ilusões, estabelecemos objetivos: sucesso, riqueza, fama – que acreditamos, se alcançados, automaticamente nos libertarão, restaurarão nosso direito à auto-expressão e nos tornarão capazes de amar.

Mas as coisas não são bem assim. A depressão atinge tanto o rico quanto o pobre. A busca do sucesso e da fama está baseada na ilusão de que eles aumentarão nossa auto-estima e ainda a estima dos outros em relação a nós, nos proporcionando a aprovação e aceitação de que parecemos tanto precisar. Isso realmente ocorre. Mas estes ganhos pouco acrescentam ao interior da pessoa: muitos cometeram suicídio no auge do sucesso; não se sabe de alguém que tenha encontrado o seu amor verdadeiro através da fama, e poucos foram os que conseguiram superar sua sensação de solidão devido a ela.

Na essência, a meta atrás da busca de dinheiro, fama ou sucesso é a auto-aceitação, auto-estima, e auto-expressão. Para muitas pessoas, ser pobre, um fracasso ou desconhecido é ser “ninguém” e portanto, indigno de amor e incapaz de amar. Mas é ilusão acreditar que a riqueza, o sucesso ou a fama podem transformar um “ninguém” em “alguém”. Pessoas de sucesso podem parecer “alguém” porque estão cercadas de sinais externos de importância, mas isso freqüentemente pouco tem a ver com sua vida interior.
E na verdade, quem necessita projetar uma imagem de ser “alguém” provavelmente se sente como um “ninguém” – resultado da dissociação entre o “eu” e o corpo. A pessoa que nega a importância do corpo, na verdade não tem corpo, e se sente forçada a substituir essa realidade por uma imagem baseada numa posição social, política ou econômica.

Percebemos imediatamente que estamos em contato com “alguém”, quando estamos na presença de um corpo vivo e vibrante. Olhando para os seus olhos saberemos se é capaz de amar; o seu rosto nos dirá se a pessoa é auto-expressiva e seus movimentos desvendarão o seu grau de liberdade interna, independente de sua posição social.  Muitas pessoas se recuperam espontaneamente de um estado depressivo, porém, não de forma definitiva se ela insiste em seus objetivos irreais. Enquanto esses objetivos permanecerem no inconsciente, a depressão voltará.

Podemos dividir as pessoas de acordo com uma tendência a depressão em “direcionadas para o exterior” e “direcionadas para o interior”. A pessoa que tem orientação interna possui uma personalidade estável, uma certa ordem interna que permite que se apóie em seus próprios pés e não são facilmente influenciáveis. Faltam essas qualidades em quem aceita um direcionamento externo: apresenta fortes tendências de dependência e precisa de outras pessoas para se apoiar emocionalmente. Quando os apoios são retirados, a depressão se instala.

Uma pessoa de orientação interna acredita em si mesma – a de orientação externa coloca o que lhe resta de fé nas outras pessoas e assim se arrisca a constantes desapontamentos. Está sempre a procura de alguma coisa fora de si mesma para acreditar – uma pessoa , um sistema , uma crença, uma causa, ou uma atividade. A primeira vista isso pode parecer positivo – afinal ela está envolvida fazendo coisas. Mas essas coisas são feitas para os outros, e ainda com a expectativa inconsciente de que reconheçam seu valor e respondam com amor, aceitação, e apoio.

A pessoa de orientação interna age e faz coisas para a satisfação de si mesma. Sua identidade inicial é consigo mesma como pessoa e suas atividades exprimem quem realmente ela é. Encontra mais satisfação em sua resposta ao mundo do que a resposta do mundo a ela. Quaisquer que tenham sido suas necessidades não satisfeitas quando criança, não espera mais vê-las satisfeita pelos outros agora. Sabe o que quer e expressa concretamente. Ela fala de si mesma de uma posição de autoconhecimento. A pessoa orientada para o exterior não consegue fazer isso – suas queixas são gerais e expressas em termos amplos, como por exemplo – quero amor ou quero ser feliz.

Numa pessoa sadia, os sentimentos mudam com freqüência, pois são respostas do organismo ao ambiente. O que se sente são as diferentes emoções, e quando se age com uma emoção ou sentimento forte, está se agindo com fé. A pessoa que perdeu a fé suprimiu todas as suas emoções fortes, e em seu lugar, como substitutos, ficou uma série de crenças ou ilusões. Muito freqüentemente essas pessoas ficam deprimidas quando a causa pelas quais lutam e sofrem passam por uma adversidade. Quando uma pessoa se torna deprimida tem-se uma indicação clara de que ela não está se mantendo em seus próprios pés. É um sinal de que não tem fé em si mesma. Investiu toda sua energia na tentativa de realizar o sonho impossível sobre o qual falamos no inicio deste artigo. Sua depressão significa sua bancarrota e desilusão. Mas se for compreendida e desarticulada adequadamente, pode abrir o caminho para uma vida nova e melhor.

Muitas pessoas são ajudadas a superar sua depressão pela terapia – a terapia que as auxilia a entrar em contato com seus sentimentos. Entrar em contato com seus sentimentos por sua vez, ajuda-as a recuperar em larga medida sua auto-expressão e independência . Nesse processo, elas se reorientam em direção a saúde e a normalidade, restaurando a fé em si mesmas.

Psicóloga – Tania Theodoro

Publicado em ARTIGOS, AUTOCONTROLE por Rodrigo Oller. Marque Link Permanente.


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2 ideias sobre “Porque ficamos deprimidos

  1. Ótimo texto sobre depressão. Acho que pessoas com orientação interna tem vantagem de estarem protegidas das agressões externas, mas criam barreiras de comunicação, tem pouca empatia e repetem sempre os mesmos erros. As pessoas com orientação externas tem a desvantagem de dependerem da qualidade do ambiente em que vivem, querem sempre que o outro esteja lá, mas são mais flexíveis e compreendem mais o outro.
    Acho que a depressão atinge as duas personalidades de formas distintas mas com uma causa em comum a citada em seu texto: “..Investiu toda sua energia na tentativa de realizar o sonho impossível sobre o qual falamos no inicio deste artigo. Sua depressão significa sua bancarrota e desilusão…”
    A depressão aparece menos em pessoas com o Ego inflado que acham que sempre tem razão e que não fazem nada de errado, vivem no mundo a parte, exemplo de bandidos que não tem nenhum peso na consciência sobre os seus atos, não se importam em prejudicar os outros em benefício próprio.

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