12
agosto

O suicídio de quem faz rir

Eles nos fizeram rir por anos e anos. Cada um ao seu modo, seja com as paródias, com as imitações, com as “gags” ou com o apelo ao lado mais escatológico, o norte-americano Robin Williams (1951-2014) e o petropolitano Fausto Fanti (1978-2014) tinham o raro talento da comédia e a ela dedicaram boa parte da vida.

Quisera fosse este o único fator de semelhança entre ambos. Infelizmente, acabamos de saber, outras circunstâncias unem a trajetória dos artistas. A depressão e a morte por suicídio.

Fausto Fanti é mais conhecido pelo personagem que o tornou famoso, o Renato, do programa Hermes e Renato. Quem tem mais de 30 anos certamente se lembra daqueles esquetes que surgiam no meio da programação da MTV Brasil, no final dos 90, com dois tipos que pareciam ter saído diretamente de alguma pornochanchada dos anos 70 e que faziam rir tanto pelas situações tresloucadas e hilárias em que se metiam quanto pelo apelo ao palavrão, aos excrementos, algo inovador àquela época, comum hoje em dia. Era muito engraçado, mas era melhor não assistir com a sua avó por perto.

Robin Williams foi um genial comediante de “stand-ups” e do improviso, que depois dos sucessos em clubes de comédia da Califórnia, ganhou fama nacional com séries de TV, e mundial, com os diversos papéis em comédias hollywoodianas. Ainda que fosse, sem dúvida, um dos maiores atores de comédia da sua geração, era igualmente adepto a outros papéis mais sérios, e talvez sejam exatamente essas interpretações em dramas as de maior apelo à memória coletiva. Quem não se lembra do professor de inglês John (carpe diem) Keating, em Sociedade dos Poetas Mortos (1989), ou o excêntrico estudante de medicina Patch Adams (1999), que levou muitos dos meus colegas do curso de medicina ao cinema e às lágrimas. E foi interpretando um psiquiatra, em Gênio Indomável, que ganhou o Oscar de ator coadjuvante, em 1997.

Afora o choque com a morte precoce de Fanti e Williams, imagino que haja também, em quase todas as pessoas, um sentimento de pasmo e incredulidade, quando se sabe que os dois comediantes sofriam de depressão. Como assim um comediante sofrer de depressão? Como uma pessoa tão engraçada como Robin Williams pode ter vivido os últimos anos da sua vida imerso numa grave depressão? Afinal, um comediante depressivo soa como um oxímoro. No entanto, isso não deveria ser novidade para nós, brasileiros. Um dos maiores artistas que já brotou do nosso solo, Chico Anysio, meses antes de falecer, tornou pública a sua batalha vitoriosa contra a depressão, à custa de tratamento psiquiátrico e da tomada de medicações.

Se há uma coisa que precisa estar claro depois dessas tragédias recentes é que a depressão existe, é uma doença que pode afetar a todos, e mata. Justamente por ser uma doença é que pode incidir sobre uma pessoa que não tem nenhum motivo para se sentir triste. Tristeza não é depressão. Tristeza é um sentimento natural, todos já a sentimos e vamos voltar a senti-la eventualmente. A depressão é a tristeza constante, é a falta de energia e de vitalidade, é a perda das sensações prazerosas, é o aperto no peito, a angústia. E o auge desse sentimento desesperador, da dor na alma que parece que não vai ter fim, é o suicídio.

Todo ano, aproximadamente 1 milhão de pessoas no mundo morrem por suicídio. As taxas de suicídio no Brasil têm variado entre 3,5 e 4,6 óbitos por 100 mil habitantes nas últimas décadas. Não é pouca coisa. E um número muito maior ainda é composto pelos casos de pessoas que tentam o suicídio. Boa parte das pessoas que tentam e que cometem suicídio sofrem de algum transtorno mental, sendo os diagnósticos mais frequentes a depressão, os transtornos de personalidade, o alcoolismo, a bipolaridade e a esquizofrenia.

Na depressão, em especial nos estágios mais graves, são comuns os pensamentos recorrentes de morte e de suicídio. É por isso que todo psiquiatra que trata uma pessoa com depressão está sempre de olho no riso de suicídio do seu paciente. Na hora da sua morte, ficamos todos sabendo que Fausto Fanti e Robin Williams sofriam de depressão.
Lendo sobre esses casos recentes de suicídio, lembrando de outros artistas ou pessoas comuns que deram fim à própria vida, e pensando nos meus pacientes que se mataram, tenho a sensação de que dava para ter feito algo, que seria possível evitar que se suicidassem. Sei que não há como evitar todas as mortes por suicídio, elas vão continuar existindo. Sem embargo, é possível preveni-lo.

Umas das primeiras lições que se aprende na residência de Psiquiatria é que se deve perguntar ativamente ao paciente deprimido sobre a sua intenção de abreviar a vida. Ao contrário do que se pode pensar, esse tipo de pergunta não induz ao suicídio, muito pelo contrário, proporciona ao paciente a chance para que revele as sua angústias e os pensamentos de morte que o atormentam. Além de questionar sobre a intenção suicida, a observação de certos fatores de risco elevam o alerta quanto à possibilidade de auto-extermínio: o planejamento bem detalhado do ato a ser cometido, providências finais antes da sua realização (encerramento de uma conta em banco ou de um perfil na rede social), a confecção de um bilhete ou carta de despedida.Uma história prévia de tentativas de suicídio, o sentimento de desesperança, história de perda recente (ente querido, emprego, posição social), de doenças físicas graves e o abuso de substâncias.

Antes de mais nada, a pessoa com depressão deve ser tratada. É assim que se vai prevenir, de fato, que as pessoas com esse transtorno cometam suicídio. O uso da medicação é imprescindível para uma pessoa com depressão grave, que tem pensamentos constantes de morte. Que a tristeza que sentimos com perda dessas pessoas talentosas, que nos faziam rir, sirva ao menos para escancarar o problema da depressão. Para que a pessoa que esteja sentindo os sintomas que relatei acima procure um psiquiatra para se tratar, para que aqueles que pensam que depressão não existe, é frescura ou falar de caráter, que repense os seus conceitos. Para que se evitem novos casos de suicídio, uma chaga que recai não somente sobre quem morreu, mas também pelo resto da vida dos familiares e dos amigos daquele que se foi.

Postado por Dr. Deyvis Rocha

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