20
dezembro

Fuja que a Verdade Vem aí!

Quem de nós gosta de encarar a verdade? Se você gosta é porque de alguma forma já aprendeu a lidar com ela de maneira mais lúcida e consciente, enfrentando-a. Em geral, não gostamos de como os fatos da vida nos são apresentados e achamos a verdade muito dura, por isso sofremos com ela.

Um dos mecanismos que possuímos para evitar dores e sofrimentos é a fuga. Ela pode se manifestar de diversas maneiras: seja em forma de anestesia diante de uma situação, seja em forma de negligência por medo de encarar um fato, ou até mesmo de simpatia, mostrando algo que não estamos sentindo para tentar evitar o julgamento alheio.

Todos nós conhecemos formas de mascarar o que sentimos para não termos que lidar com a verdade. Vejamos alguns exemplos reais que constantemente enfrento em consultório:

1-Uma moça veio se consultar e não sabia o porquê de sua vida estar tão triste, encontrava-se depressiva. Através de técnicas específicas, atingimos um estágio no qual ela se via interiormente anestesiada em 3 passagens cruciais de sua vida, embora não tivesse consciência disso anteriormente: na primeira delas, com 12 anos de idade ao perder seu animal de estimação, na segunda, com 26 anos de idade quando teve que encarar o falecimento de sua mãe e em seguida, aos 28 com a perda de um de seus irmãos.

2-Em outro caso típico, me lembro de atender uma pessoa que sentia fortes dores no peito e tinha uma saliência irregular em seu mamilo com uma ferida exposta, mas recusava-se a procurar um médico, com o conhecido jargão: – ah, não gosto de ir a médicos…

Poderia enumerar vários outros casos, para exemplificar nossa deficiência para lidar com a verdade. Parece que quanto menos queremos encará-la, mais precisamos fugir dela, seja alimentando nossas ilusões, seja nos processos de fuga mesmo que indireta. Por exemplo: ao “dormir” enquanto alguém fala exatamente o que precisamos escutar, trabalhando mais horas por dia para não pensar ou enfrentar fatos, ajudar a todos para não ficarmos sozinhos e não enxergarmos o buraco cavado em nosso próprio peito. Quantas vezes também fingimos para nós mesmos que “não queremos mais” retomar um negócio que não vingou há anos atrás e que já esquecemos?; ou então que “não queremos mais” nos relacionar, pois as pessoas são rudes, que ninguém é de confiança, que nada está suficientemente bom, que não temos mais a idade para fazer isso ou aquilo? No final encontramos muitos pretextos para não encarar a verdade, só porque ela dói. É claro que dói, o próprio poeta Carlos Drummond de Andrade menciona: “a dor é inevitável, o sofrimento é opcional!”

Não apenas nos casos que enumerei acima, como em todos os outros em que realmente obtivemos sucesso, foi porque conseguimos olhar para a verdade com a vontade de quem quer aceitá-la com maturidade suficiente para transcender a dor real. No primeiro caso, a moça em questão estava tão esgotada que logo encarou a dor das perdas, pois o sofrimento em que ela se colocou por uma vida inteira (contraditoriamente, sabotando-se para não sofrer) era muito pior do que encarar sua própria verdade. Só assim ela pôde encontrar novamente o significado e felicidade na vida. No segundo caso, a pessoa assumiu que não iria ao médico, pois estava com medo do que iria encontrar, continuou por mais algum tempo ainda defendendo seu medo e depois foi em busca de sua recuperação.

A verdade é única, porém várias são as maneiras que podemos encará-la. Podemos ainda exagerar, mentir fingindo que ela não existe, desenvolver doenças, inconscientemente, para não termos que enfrentá-la, deixando que alguém tome a frente, no entanto, toda fuga causa mais sofrimento do que a própria verdade poderia. Desde cedo aprendemos a fugir da verdade, sabemos que qualquer criança finge uma dor de cabeça para não ter que enfrentar a escolinha, até que consiga lidar com suas responsabilidades de forma mais consciente e aberta.

O mais preocupante é que qualquer que seja o subterfúgio, se não encararmos a verdade pura com maturidade, enfrentando nossas crenças catastróficas, o medo e a dor com nossa garra e força inerentes, perpetuamos o sofrimento, e qualquer fato continua internamente latente em cada um de nós, seja: um passado infeliz, uma história de amor que teve um triste desfecho, seja o medo das perdas futuras, das incertezas, do que dará certo ou não, e do que está por vir. Todos eles, adormecidos em nós e alimentados pela fantasia negativa de que a verdade é dura e amarga, proporcionam ao indivíduo uma vida cada vez mais sem graça, vencendo sua motivação e o impedindo de viver com plenitude, com realização.

É fundamental que cada indivíduo trabalhe consigo de forma consciente para não alimentar a fuga, senão a mensagem subliminar que vibrará por toda sua vida será: “pare o mundo que eu quero descer…”. Isso estagna nosso crescimento na vida! O simples fato de estar vivo no mundo não é significado de que você esteja vivendo nele. Participar da vida faz toda a diferença, mas isso é para poucos, apenas para aqueles que têm a coragem de enxergar seu lado negro e dar a ele um novo significado. Você está realmente participando da sua vida?  Do que está fugindo?
Aqui me permito ir além do poeta: “o amadurecimento e o aprendizado são inevitáveis e por vezes doloridos, mas sofrer é opcional!”

Por: Mario Sabha

Publicado em ARTIGOS, AUTOCONTROLE por Rodrigo Oller. Marque Link Permanente.


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