24
janeiro

Está provado: a Linda de ‘Amor à Vida’ não existe

Até então de poucas palavras, Linda (Bruna Linzmeyer) falou pelos cotovelos no capítulo de ontem (23) de ‘Amor à Vida’: longe de ser uma autista real, ela é uma princesa com uma síndrome misteriosa, que só existe na cabeça do autor Walcyr Carrasco (Reprodução)

Desde os anos 90 que a novela brasileira, especialmente da Globo, incorporou o conceito de merchandising social as tramas. Nesse período, são inegáveis as contribuições de personagens como a Odaísa (Isadora Ribeiro) de Explode Coração, que em 1995 levou ao ar uma campanha sobre crianças desaparecidas, e a Camila (Carolina Dieckmann) de Laços de Família, com a qual Manoel Carlos ajudou a elevar o número de doações de medula óssea em 2000. Mas a parte das conquistas, não se pode deixar de notar que esse tipo de história resulta, em muitos casos, num prejuízo para a dramaturgia, que fica refém da vontade de interferir na realidade por meio da ficção.

Quem acompanha os bastidores da TV há algum tempo certamente percebe. Primeiro, durante o lançamento, é detalhado todo o trabalho de pesquisa da produção, em especial dos atores, que sempre contam ter passado por um “laboratório” a fim de levar o real para as cenas. Isso gera uma expectativa enorme no público e na imprensa. Mas eis que a novela avança, a história e a imaginação do autor se impõem, não raro chocando os profissionais que lidam com o assunto no dia-a-dia. Começa, então, uma enxurrada de críticas. A resposta do autor é sempre a mesma: gente, é ficção!

É o que acontece nestes momentos de finais de Amor a Vida (Globo, 21h), quando a autista Linda (Bruna Linzmeyer) se distancia totalmente do real em nome de um objetivo principal, o de contar uma história de amor em clima de conto-de-fadas. É certo que a trama dela teve um ritmo mais lento do que as demais, para deixar clara a evolução no seu desenvolvimento, até então prejudicado pela super proteção dos pais, Neide (Sandra Corveloni) e Amadeu (Genézio de Barros). Os especialistas do mundo real, entretanto, são categóricos na afirmação de que o que se vê na novela não é possível na vida real, como mostrou uma reportagem no site de VEJA.

O autismo, como vem sendo explicado, é uma síndrome que se manifesta de maneira única em cada portador. Linda seria, portanto, uma autista única. Mas o fato é que Linda só existe no texto de Walcyr Carrasco e na interpretação de Bruna, como bem definiu Sandra Corveloni em entrevista a Quanto Drama!, publicada na segunda. Se havia alguma dúvida, a prova definitiva veio da sequência apresentada no capítulo de ontem (quinta, 23), quando a jovem abriu o coração para a família, que vinha impedindo o contato com o advogado Rafael (Rainer Cadete).

“Socorro, eu tenho que falar. Dói, dói, dói… A vida toda presa, dentro do meu corpo. Barulho dói, luz forte dói, os cheiros me fazem mal. Presa dentro de mim. As vozes… tem uma parede de vidro entre eu e vocês. Eu ouvia vocês, mas as vozes não entravam dentro de mim. O sentido das coisas não entrava. Mas aí chegou o Rafael e o Rafael quebrou, quebrou, quebrou a parede. O Rafael deu tempo para a Linda, tempo que lateja, lateja… tempo para a Linda existir.”

O que se passou é da ordem dos milagres operados pelo amor. Há poucos capítulos, para dar apenas um exemplo, Linda não foi capaz de compreender a morte da irmã, Leila (Fernanda Machado). Como ela teria chegado ao raciocínio tão complexo e ao vocabulário tão incrementado, sem falar na metáfora da “parede de vidro”, como se viu na cena?

O telespectador fiel à novela dirá que foi Rafael o responsável por tirá-la da torre de castelo imaginário. Mas aí é que está: tanto Rafael quanto o castelo também só existem na ficção, o que faz Linda resultar não no retrato de uma autista, como se esperava, mas no de uma princesa portadora de uma síndrome que só existe na cabeça de Walcyr Carrasco. Já o autismo, longe ter sido elucidado pela novela como se propôs no início, segue como questão a ser enfrentada na vida real.

Por: Patrícia Villalba da Veja

Veja também:

Bruna Linzmeyer apoia campanha do Dia da Pessoa com Deficiência
História de Carly fleischmann Autismo severo

Publicado em ARTIGOS, AUTOCONTROLE, NOTÍCIAS por Rodrigo Oller. Marque Link Permanente.


Comentários via Facebook

comentários



Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado