30
setembro

Esquizofrenia – Realidade partida

Vozes imaginárias, delíros. Esse distúrbio já foi sinônimo de loucura, mas não deveria. Com tratamentos que reintegram pacientes à sociedade, falta apenas vencer o estigma de doença. Cena do filme “Uma mente brilhante”, que conta a história de John Nash / Reprodução

O matemático americano John Forbes Nash foi um gênio precoce. Em 1949, aos 21 anos, escreveu uma tese de doutorado de apenas 27 páginas sobre a Teoria dos Jogos, que revolucionou a economia. Mas sua chama criativa se apagou aos 30 anos, quando começou a ouvir vozes e perdeu contato com a realidade.

A mulher o internou num hospital psiquiátrico, onde lhe diagnosticaram esquizofrenia. “Eu me sentia perseguido. Achava que o presidente, o papa e outras pessoas conspiravam contra mim”, recordou Nash ao canal americano PBS em 1995, após ganhar o Nobel de Ciências Econômicas pelas ideias que desenvolveu na juventude.

Aos 82 anos, Nash está há mais de 5 décadas lutando contra o transtorno, numa história que inspirou o filme Uma Mente Brilhante (2001). A esquizofrenia não ataca de uma vez. Em vez disso, envia sinais. A pessoa começa a mudar o jeito de ser entre o final da adolescência e o início da idade adulta: fica mais retraída, isolada. Depois, tem delírios – ou seja, ideias incompatíveis com a realidade-, alucinações, como vozes comentando sobre seus atos e pensamentos, e fala e comportamento desorganizados. O trabalho, a relação com os outros e o cuidado de si são gravemente afetados, caso a pessoa não seja tratada.

Se não fosse um gênio precoce, Nash certamente padeceria o transtorno no anonimato, como ocorre com a imensa maioria dos esquizofrênicos. E eles são muitos: 2 milhões no Brasil e 70 milhões no mundo. Esse transtorno não tem cura, mas pode ser tratado, apesar de ainda ser incompreendido tanto pela população geral como por suas vítimas.

O primeiro passo para entendê-lo é se livrar do preconceito. “Durante muito tempo, a esquizofrenia e outros transtornos mentais foram tratados como loucura. Os doentes chegavam a ser internados a vida toda sem dispor de tratamentos adequados”, diz Mario Louzã, coordenador do Projeto Esquizofrenia do Instituto de Psiquiatria do Hospital da Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Hoje, os remédios são muito mais eficientes e as internações, mais breves, necessárias apenas para controlar as crises. “Quando são adequadamente diagnosticados e tratados, os portadores de esquizofrenia convivem normalmente com a sociedade, perfeitamente integrados, como qualquer pessoa sem a doença”, afirma Louzã. Mas não era assim nos tempos da escultora Camille Claudel, nascida na França em 1864.

Depois de ser aluna, confidente e amante do mestre escultor Auguste Rodin, ela o acusou de querer roubar suas obras para expô-las como dele. Seus surtos se manifestaram em 1905, quando Camille já era famosa por moldar blocos de pedra. Ela destruiu diversas estátuas e sumiu por longos períodos. Morreu em 1943, após 30 anos num asilo.

O que se passa pela cabeça do portador da doença? Isso varia conforme o paciente. Ele é tomado por delírios, que são sempre pensamentos. Mas também pode ter alucinações, ou seja, percepções irreais dos órgãos dos sentidos. Na esquizofrenia, as alucinações são tipicamente auditivas. Alguns relatam ouvir vozes quando estão sozinhos. Podem também achar que estão sendo vigiados pela polícia, pela máfia ou por uma organização secreta. Nash acreditava que comunistas e não-comunistas estavam em seu encalço, armando contra ele enquanto disputavam o xadrez da Guerra Fria.

Sim: a esquizofrenia prega peças em suas vítimas. Muitas suspeitam que os vizinhos escutam atrás da porta, que o telefone está grampeado ou que o rádio envia mensagens secretas. Outras acham que o jornalista da TV está falando sobre elas – o que os médicos chamam de interpretação delirante.

Alucinações, delírios e desorganização do pensamento fazem parte dos chamados “sintomas positivos” da esquizofrenia. Eles ficam mais intensos nas crises agudas – os surtos psicóticos -, que são intercaladas por períodos de remissão. Mas também existem os “sintomas negativos”, como diminuição de expressão das emoções, apatia, isolamento social e uma desesperança profunda. Tanto que o índice de suicídio entre esquizofrênicos é maior que o da população em geral. Médicos ainda consideram um 3º grupo de sintomas, os “cognitivos”, que incluem dificuldade de abstração, déficit de memória, comprometimento da linguagem e falhas no aprendizado. “Às vezes, a pessoa entra na faculdade, tem o primeiro surto e depois não consegue obter o rendimento de antes”, diz Louzã.

Isso também acontece no trabalho. A pessoa ascende na carreira, sofre o primeiro surto e jamais retorna à posição que tinha. Que o diga o russo Vaslav Nijinski, um dos bailarinos mais virtuosos da história. Aos 10 anos, entrou na lendária Escola de Balé Imperial da Rússia. Aos 18, já era famoso por dar saltos que desafiavam a lei da gravidade. Mas sua carreira acabou aos 29, quando a esquizofrenia o abateu em pleno voo. A partir daí, Nijinski vagou entre hospitais psiquiátricos – e nunca voltou aos palcos.

Genética e ambiente
A doença golpeou Nijinski em 1919, quando pouco se sabia sobre ela. Fazia apenas 11 anos que o psiquiatra suíço Paul Bleuer havia cunhado seu nome para diferenciá-la de outros transtornos. Bleuer chegou a examinar Nijinski, mas não tinha o conhecimento nem os remédios antipsicóticos necessários para tratá-lo.

Desde então, o diagnóstico e o manejo da esquizofrenia avançaram muito. Mesmo assim, a origem da doença ainda intriga os especialistas.

Ao que tudo indica, ela tem um componente genético e neurodesenvolvimental. Ou seja: já no útero, o feto começa a sofrer uma alteração em seu sistema nervoso. Esse quadro progride na infância e na adolescência, até culminar com o aparecimento dos sintomas. A maioria dos psiquiatras considera que as crises dos esquizofrênicos acontecem justamente por causa desse desenvolvimento cerebral anormal. Ele geraria um desequilíbrio das substâncias que enviam mensagens entre os neurônios – os chamados neurotransmissores.

“Acreditamos que haja excesso dessas substâncias em algumas regiões do cérebro e diminuição em outras”, diz o psiquiatra Jaime Hallak, professor da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP. Além disso, parece não haver dúvida quanto à faceta progressiva da doença. Ou seja: quanto maior o número de crises, mais o cérebro vai adoecendo.

É por isso que os medicamentos buscam evitar novas recaídas, além de diminuir os sintomas agudos. A partir dos 50 anos, a turbulência diminui e o transtorno tende a se estabilizar.

Ok, os médicos estão bastante seguros quanto a esses processos, mas admitem não saber o que está por trás deles. O fator genético pode ser inferido por uma questão matemática: se seu pai tem esquizofrenia, o risco de você ter a doença salta de 1 para 10%. Se seu pai e sua mãe tiverem, o risco sobe para 25%. Mas os genes sozinhos não resolvem essa equação. Veja o caso dos gêmeos univitelinos (idênticos): se um deles tem esquizofrenia, o outro tem 50% de risco de também ter – quando se esperariam 100%. “E mesmo conhecendo esse padrão genético, não sabemos qual ou quais genes estão alterados”, diz Hallak.

Se a genética não responde por tudo, fatores ambientais também estariam ligados à doença. Infecções durante a gravidez, por exemplo, poderiam atuar como disparadores. Mais: mudanças importantes na infância e na adolescência também podem gerar uma situação de estresse que vai obrigar a pessoa a se reorganizar. E é nessa fase de adaptação que a esquizofrenia pode se manifestar em quem tem a propensão genética.

Segundo Hallak, perder um parente querido ou migrar para outro país aumentaria o risco de 1 para 3%. Usar drogas é ainda pior: se você fumou muita maconha na adolescência, o risco de desenvolver esquizofrenia pode subir até 10 vezes quando ficar adulto.

E todos esses fatores são cumulativos. “Se você tiver uma perda familiar importante, for demitido, tiver usado maconha desde a adolescência e ainda migrar para outro país, o seu risco pode chegar a 20%”, diz Hallak. “Mas o componente genético é fundamental. Aqueles que não têm essa propensão dificilmente vão desenvolver a doença.”

Esquizofrênicos da paz
O americano Edward Theodore Gein cometeu alguns dos crimes mais bizarros da história. Nascido em 1906 no povoado de Plainfield, no Wisconsin, ele violava tumbas e roubava partes de corpos femininos para guardar como troféus. Fazia roupas com as peles (e depois as vestia) e móveis com os ossos. Sua casa também abrigava uma coleção de órgãos sexuais femininos e máscaras feitas com as caras das vítimas. Em 1957, Ed Gein admitiu ter matado 2 mulheres para destrinchá-las. Acabou confinado em hospitais psiquiátricos até sua morte, em 1984.

Para o público em geral, é tentador chamar Ed Gein de esquizofrênico. E não só ele, mas toda a gama de personagens de ficção que inspirou, como Norman Bates, protagonista do filme Psicose, de Alfred Hitchcock, Leatherface, de O Massacre da Serra Elétrica, e Buffalo Bill, o travesti de Silêncio dos Inocentes, que matava suas vítimas para tirar a pele feminina e implantá-la em seu corpo.

Mas essa comparação revela outro estigma. “A fantasia que muitas pessoas têm do esquizofrênico é misturada com personagens que possuem algo bizarro. Assim, acham que o esquizofrênico é uma pessoa bizarra, com comportamentos esquisitos. Na verdade, isso é um exagero”, afirma Louzã. “Um esquizofrênico bem tratado e com medicação controlada vai ter um comportamento bem natural.”

Mesmo entre os não-tratados, só uma minoria é violenta. Na verdade, são retraídos e têm mais chances de causar danos a si próprios que aos demais. Claro que alguns cometem atos violentos e por motivos bizarros – como um homem que abre a cabeça da mãe para tirar ideias de lá. Mas casos assim são exceções, e o resto leva a fama. “Toda vez que ocorre algum crime violento envolvendo um paciente com esquizofrenia, a repercussão nos meios de comunicação é enorme. E as pessoas ficam com a impressão de que esses pacientes são mais violentos que a população em geral”, diz Louzã.

Os subtipos de esquizofrenia
Eles são diagnosticados de acordo com os sintomas

Paranoide
A pessoa tem delírios e alucinações.

Hebenefrênico ou desorganizado
Sobressaem alterações da afetividade e desorganização do pensamento.

Catatônico
O indivíduo apresenta alterações motoras.

Simples
Em vez de delírios e alucinações, ocorrem alterações da motivação e da afetividade.

Residual
Prevalecem os sintomas negativos, como embotamento afetivo e pobreza da fala. Em geral, os demais subtipos evoluem para o quadro residual.

O cinema surtado
A esquizofrenia é apenas um entre os vários quadros de psicose – todos ligados à perda de contato com a realidade. Surtos podem ser causados por drogas em não-esquizofrênicos. Há ainda o transtorno delirante, em que a pessoa acredita em ideias sem lógica, mas não tem a linguagem e o comportamento tão prejudicados. Já no transtorno esquizoafetivo, ocorre uma mescla de alterações na percepção com mudanças bruscas de humor. Ou seja, fica bem fácil confundir tudo. E é o que o cinema faz. Poucos filmes representam claramente um esquizofrênico. Boas exceções são Spider (2002), de David Cronenberg, e Shine (1996), de Scott Hicks. Nele, o pianista David Helfgott luta para voltar a tocar depois do primeiro surto e vira um exemplo de superação da doença.

por Eduardo Szklarz – site superinteressante

Para saber mais

Esquizofrenia: Manual do Cuidador
Mario Louzã, Planmark, 2008.

Uma Mente Brilhante
Sylvia Nasar, Record, 2002.

Filme Completo – Uma Mente Brilhante


Publicado em ARTIGOS, AUTOCONTROLE, FILMES, MENTE por Rodrigo Oller. Marque Link Permanente.


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