21
janeiro

Cego de nascença, brasileiro monta empresa e divide experiências pela web

Cego de nascença, Maurício Almeida, 18, cresceu lutando por autonomia, foi estudar nos Estados Unidos, montou sua empresa e, hoje, divide suas experiências na internet.  Alessandro Shinoda/Folhapress 

O empreendedor Maurício Almeida, em sua residência. Veja seu depoimento:

Nasci prematuro, com pouco mais de 1 kg. Meus olhos eram tão sensíveis que o ar da incubadora descolou minha retina. Graças ao meu pai, aprendi que teria de ir atrás do que eu quisesse ter. Como muitos nunca lidaram com um cego, não conhecem. Quem não enxerga tem de provar que está apto para conversar de igual para igual antes de obter o que quer.

Minha família diz que, desde pequeno, sempre falei que queria estudar nos Estados Unidos e percebi que precisava fazer algo para que isso se tornasse realidade.

Tive uma professora de inglês que me deu aula desde os 3 anos e me preparou para estudar em uma escola bilíngue, onde fiz o ensino médio. Consegui um diploma que vale para os EUA.

Aprendi criança a ler em braille e sempre estudei em escolas regulares, como o colégio Arquidiocesano, em São Paulo. Apesar de eu ter sido o primeiro aluno cego nas escolas em que estudei, sempre procuraram a melhor forma de me ensinar.

Comecei a gostar de informática por causa do meu pai. Um dia ele colocou um computador na minha frente e falou ‘digita’. Explicou que as gavetas eram as pastas, e as folhas eram os arquivos. Eu tinha uns 11 anos.

Fiquei maravilhado! Por muito tempo, tive dificuldade com captchas de texto na internet [imagens com texto embaralhado, que precisa ser digitado para dar acesso a outra página]. O cego não tem como saber o que está neles.

Quando tem algo que não consigo fazer porque não vejo, geralmente já sei o porquê do problema e dou um jeito.

Com o tempo, fui substituindo o braille por notebooks na sala de aula. Comecei a criar sites e a comprar hospedagem de empresas, como brincadeira. Em 2011, pensei por que não pegar o que não gostei em serviços de hospedagem e abrir o meu.

Assim comecei no Brasil minha primeira empresa de hospedagem de sites, a Webmegaspace LLC, e me tornei microempreendedor.

A ideia é que meu cliente se torne independente, use uma vez o suporte técnico e já saiba ensinar por aí. Já tenho dez clientes hospedados, fora as consultorias que faço.

O esforço deu resultado. Passei na Universidade Estadual de Michigan para o curso de ciências da computação. Eles avaliaram meu histórico escolar e outras atividades que fazia. Já ter minha empresa contou muito.

SONHO AMERICANO

Passei meu primeiro semestre sozinho no campus da universidade. Foi ótimo. Querendo ou não, os pais de alguém com deficiência fazem tudo para ajudar. Fui obrigado a aprender a me virar por minha conta própria.

Na universidade, todos os computadores têm leitor de tela instalado, posso sentar e usar o que eu quiser. O mais difícil foi usar a lavanderia do prédio universitário.

Resolvi levar minha empresa para os EUA. Agora tenho um sócio americano. Fiquei com 60%, e ele, com 40%.

Tenho um hobby, que são os audiogames [jogos de sons]. Junto com amigos, comecei a traduzir jogos estrangeiros. Pedimos autorização à empresa que produziu, traduzimos o jogo e o manual, escolhemos locutores e gravamos as vozes. Nos EUA, faço a parte de relacionamento com as produtoras dos jogos para pedir a autorização.

Muitos querem saber como estão as coisas comigo na viagem. Então, comecei a pôr minhas experiências e pensamentos num blog, o www.mauricioalmeida.com.br

O cego chama a atenção, desperta curiosidade. Aprendi a usar essa atração para fazer amigos. Gosto de ensinar como eu faço as coisas, minhas singularidades.

(…) Depoimento a
FILIPE OLIVEIRA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA DE SÃO PAULO

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