20
junho

Burnout, depressão e suicídio nos médicos de Recife

Pesquisa mostra que 30% dos médicos estão deprimidos. Jornada excessiva, falta de valorização e a falta de estrutura de trabalho elevam o problema.

A medicina está entre as profissões mais estressantes. As taxas de depressão, alcoolismo, uso de drogas e suicídio são mais elevadas entre os médicos do que na população em geral e entre outras profissões.

Exaustão antes mesmo de iniciar o dia de trabalho. Angústia, ansiedade, desânimo, isolamento e indiferença com os colegas. Esses sintomas clássicos da síndrome de burnout foram identificados em pelo menos um terço dos médicos do Hospital Estadual Jaboatão Prazeres, na Zona Oeste do Grande Recife. A pesquisa, realizada no ano passado e divulgada agora, mostrou maior frequência dos sinais da síndrome em plantonistas da emergência. Nesse setor, o índice de prováveis portadores foi de 26%, contra 8% dos que atuam em ambulatório. A maior parte do grupo é formada por mulheres.

“O problema é identificado entre médicos, mas atinge também enfermeiros e outros profissionais de saúde”, diz o cirurgião-dentista Waldemir Borba, diretor do Hospital Jaboatão Prazeres e autor da pesquisa, feita durante pós-graduação em gestão de saúde pública, pela Universidade de Pernambuco. Para ele, os médicos e outros trabalhadores da área estão sendo consumidos pelo estresse da função, a longa jornada em múltiplos empregos e a difícil relação no ambiente de trabalho.

A amostra ouvida por Borba foi composta por 40 médicos, de 27 a 61 anos de idade. Desse total, 60% atuam na emergência e 40% nas consultas marcadas. Dos entrevistados, 68% eram do sexo feminino. Os plantonistas referiram sobretudo sinais típicos da chamada exaustão emocional, como o cansaço e o esgotamento, o traço inicial do transtorno. “Decorre principalmente da sobrecarga e do conflito pessoal nas relações interpessoais”, explica Borba. Outros sinais identificados têm a ver com a despersonalização, que se manifesta na insensibilidade emocional. “A pessoa geralmente discute, vive de cara amarrada, trata colegas e o público como objeto e se isola”, explica o pesquisador. O quadro evolui para a perda de autoestima. “Ela não se sente vital no trabalho”, acrescenta.

Embora as leis trabalhistas já contemplem o mal como síndrome do esgotamento profissional, não é fácil assumir a condição de portador. Há insegurança na hora de pedir ajuda, por temer a exposição e a incompreensão com o estado. No caso dos médicos, há outro agravante. “Mesmo sofrendo física e emocionalmente, eles não procuram ajuda e tendem a se automedicar. Existe uma subnotificação dos casos”, diz Waldemir Borba. Ele lembra que a doença psiquiátrica tem prevalência maior entre médicos se comparado com a população geral.

Para o pediatra intensivista Sílvio Rodrigues, presidente do Sindicato dos Médicos de Pernambuco, a estrutura atual dos serviços e as relações de trabalho no setor público e privado ajudam o profissional a sofrer de depressão. “No setor público há uma sobrecarga de trabalho e limitações para exercício da profissão. O médico vê pacientes morrerem sem condições de oferecer o ideal para eles, nos ambulatórios encaminha a pessoa para exame e não tem retorno. No setor privado, a autonomia é quebrada por terceiros, como os donos dos hospitais e planos de saúde”, enumera.

Com 42 anos de idade e 17 de profissão, grande parte no setor público, Rodrigues confessa que já sentiu o estresse de perto. Teve tempo em que entrava de plantão no sábado e só chegava em casa na segunda-feira. “A gente se sente exausto, ansioso, discute frequentemente”, descreve. Com os colegas, segundo ele, há situação pior. “Vejo gente com enxaqueca ou taquicardia na véspera de assumir o plantão, é uma ansiedade pré-trabalho”, afirma. Conforme Rodrigues, há trabalhador tão exausto emocionalmente que às vezes não sabe sequer onde se encontra.

Para ele, a prevenção da síndrome passa por uma carreira que garantisse ao médico um único emprego no setor público, com boa remuneração. “Ele poderia trabalhar de manhã e de tarde evoluindo pacientes nas enfermarias ou dando no máximo dois plantões de 24 horas por semana”, sugere.

No Hospital Getúlio Vargas, um dos maiores da rede estadual situado no Recife, uma experiência iniciada há quatro anos vem tentando criar uma nova cultura: o cuidado com o servidor. “Criamos o Núcleo de Atenção Psicossocial (Nuap), para acolher e tratar os trabalhadores estressados, alcoolistas e com outras dificuldades. Também implantamos o exame periódico anual, para saber como anda a saúde do funcionário”, explica Ivanete Ferreira Lima, coordenadora de Recursos Humanos do HGV.O Nuap oferece, além de tratamento médico e psicológico, terapias em grupo, práticas integrativas como reiki e vem abraçando novas perspectivas, como discutir um projeto de vida para os que estão em via de se aposentar, sujeitos também à depressão em razão da mudança na rotina.

“Estamos cuidando do cuidador”, diz Eliane Matos, psicóloga do HGV. O primeiro passo do trabalho é deixar o servidor à vontade para procurar o serviço. Pessoas com síndrome do pânico, síndrome de burnout e dependência química têm buscado ajuda. A prevenção e o tratamento não só respeitam a saúde do trabalhador, como garantem menos prejuízo aos gestores, já que a doença rende frequentes afastamentos do trabalho.

“É preciso criar políticas de atenção à saúde desses profissionais”, diz Waldemir Borba. Ele defende a criação de espaços de convivência para servidores de saúde nos hospitais, com sala para exibição de filmes, ginástica, relaxamento, biblioteca e internet. “No horário de descanso, o trabalhador poderia optar por fazer outras atividades, como conversar com a família pela internet”, sugere. A síndrome, cujo nome significa fogo para fora, é alvo não só de pesquisas. Waldemir Borba se dedica, no momento, a divulgar o problema e discutir soluções, com palestras nos serviços de saúde.

Fonte: Dr. Tarcio

Publicado em ARTIGOS, AUTOCONTROLE, SAÚDE por Rodrigo Oller. Marque Link Permanente.


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