11
agosto

Brasil é o 2º em ranking dos mais estressados do mundo, aponte estudo

Sensação de não ter escolha aumenta efeitos negativos do estresse

Não há como fugir dele. O estresse já se incorporou ao cotidiano da maioria das pessoas, em especial nas grandes cidades. E, embora tenha se tornado nos últimos anos sinônimo de irritação, frustração e problemas a serem resolvidos, não é, por si só, necessariamente ruim.

Pelo contrário: se hoje estamos aqui é porque, em momentos de grande risco à preservação da própria vida (como encontrar um predador pela frente), em frações de segundo o cérebro de nossos antepassados deu ordem para que fosse descarregada na corrente sanguínea uma considerável carga de hormônios. Esse processo orgânico, indissociável das consequências emocionais, os preparou para duas reações possíveis: lutar ou fugir. Obviamente havia outra possibilidade: ficar e ser inexoravelmente devorado pela fera – mas claro, os que fizeram essa escolha não viveram para perpetuar seus genes e se tornar nossos ancestrais. O problema dessa história são os resquícios que carregamos desse funcionamento.

Não por acaso, quase todo mundo vive estressado na maior parte do tempo. Os números são impactantes. Dados da International Stress Management Association (Isma) indicam que, no Brasil, 70% dos adultos economicamente ativos sofrem de estresse e quase metade desse contingente sente-se sobrecarregada em razão do trabalho. Brasileiros, aliás, ocupam o segundo lugar nesse ranking pouco atraente dos mais estressados do mundo – perdendo apenas para os japoneses. O quadro tem consequências graves: estudos científicos indicam que o nível de estresse e o estilo de vida da pessoa determinam em torno de 60% das doenças que ela pode vir a desenvolver. Especialistas americanos estimam que cerca da metade das internações diárias nos Estados Unidos atualmente é causada por distúrbios direta ou indiretamente decorrentes da sobrecarga, principalmente emocional: são mais de 230 milhões por ano.

Ainda assim, por estranho que possa parecer para alguns, o estresse tem seu lado positivo: pode ser benéfico, desde que ocorra em doses pequenas. Quem vive experiências instigantes e descortina horizontes inteiramente novos está sujeito a uma excitação estimulante. Ou seja: evitar o estresse a qualquer custo, além de impossível, seria, portanto, indesejável.

“Quem vive de modo excessivamente pacato também sofre com estresse causado pelo tédio e pela monotonia”, afirma o endocrinologista Sepp Porta, chefe do Instituto para Pesquisas Aplicadas do Estresse, em Graz, na Áustria. Estudos confirmam suas palavras: a calma duradoura é tão estressante quanto uma vida demasiadamente agitada.

A diferença mais marcante entre as pessoas muito e as pouco estressadas foi encontrada por pesquisadores ingleses do Centro Internacional de Saúde e Sociedade, por meio do famoso estudo Whitehall II. Durante vários anos, foram analisadas a saúde e as condições de trabalho e de vida de 10 mil funcionários públicos de meia-idade. Os resultados mostraram que a diferença fundamental na suscetibilidade ao estresse não reside nem nos fatores genéticos nem na estrutura psíquica dos indivíduos, mas em um fator psicossocial: quanto mais autônoma e dona de seu destino é uma pessoa, tanto menos está sujeita a tensões e ao estresse. É por esse motivo que, de acordo com os resultados coincidentes dos estudos americanos, suecos e ingleses, funcionários em posição de comando não apresentam a maior incidência de problemas decorrentes de tensão nervosa. Apesar de terem agendas superlotadas e carga excessiva de trabalho, pessoas em cargos de comando são muito mais relaxadas que seus subalternos. Estes últimos, embora só precisem trabalhar oito horas por dia, têm de cumprir tarefas que lhes são impostas, obedecer a prazos e ritmos de trabalho. E, muitas vezes, se frustram por não se sentirem reconhecidos como gostariam. Claro que podemos pensar que essa situação que agrava quando, inconscientemente, nutrimos em relação a nossos chefes a expectativa da aceitação incondicional que outrora desejamos ter de papai e mamãe. É claro que essa dependência da aprovação de figuras de autoridade pode ser vista (e possivelmente transformada) na psicoterapia – mas enquanto persiste é inegavelmente estressante e tem efeitos no corpo.

Vários estudos recentes mostram a alta proporção de vítimas de infarto que sofreram rebaixamento profissional e com isso perderam liberdade de decisão. Algumas delas talvez apresentassem propensão genética ao estresse, outras talvez carregassem traumas de infância e em vários casos o infarto estava relacionado às suas características de personalidade. Mas não há dúvida de que, na maioria dos pacientes, o fator psicossocial exerceu papel determinante no desencadeamento da doença. Em última instância, porém, o fator psicossocial é o único que decorre em sua totalidade da ação humana, o que abre possibilidade de ser modificado. Não há como influenciar a herança genética de um indivíduo; do mesmo modo, sua estrutura de personalidade dificilmente é modificada. Mas os fatores psicossociais talvez possam ser alterados com resultados positivos.

Apesar das boas perspectivas, as receitas correntes de combate ao estresse – banhos quentes, exercícios físicos, relaxamento muscular –, não obstante seu efeito inegavelmente benéfico, não alteram estruturalmente as fontes de estresse. Nos últimos anos, cada vez mais especialistas têm concordado que, tão importante quanto mudar as coisas em si, concretamente, é imprescindível alterar a relação que temos com as situações da própria vida.

Há alguns anos, a psicóloga Rebecca Shansky, pesquisadora da Universidade Northeastern, em Boston, descobriu, em estudos com animais, que o estresse prolongado afeta as conexões entre os neurônios no córtex pré-frontal. Nos seres humanos, essa região regula funções cognitivas superiores como a concentração e a organização. Alterações estruturais podem levar a deficiências nessas funções. Há pessoas que se sentem especialmente estimuladas quando são desafiadas com questões trabalhosas, mas não impossíveis de serem resolvidas. “Nesses casos, a pressão mental pode energizar o desempenho, mas sempre há um limite para o que podemos suportar de forma saudável”, observa o pesquisador Stuart Sidle, da Universidade de New Haven, em Connecticut. Na maioria das vezes, o “remédio” para a sobrecarga do cotidiano pode ser mais simples do que a maioria das pessoas imagina. “Para manter a sanidade, basta dar um passo atrás”, afirma Rebecca Shansky. Uma pausa é importante não só para garantir saúde psicológica, mas para manter o bem-estar físico.

Estudos realizados por ela em animais revelam que se após um período grande de sobrecarga houver um período de descanso, as mudanças neuroanatômicas tendem a se reverter. “Precisamos recarregar nossas baterias mentais, por isso ter tempo simplesmente para não fazer nada é fundamental”, argumenta Phillip Clifford, do Medical College of Wisconsin, em Milwaukee, numa referência à ideia do ócio criativo, apresentada por Domenico de Masi. O cientista italiano se tornou famoso ao defender uma melhor distribuição entre atividade profissional, estudo e lazer. Diferentemente do que alguns acreditaram, ele não prega a diminuição das horas trabalhadas, mas a diversificação de atividades, com maior integração entre produção e prazer.

E se pararmos para pensar e nos questionarmos com sinceridade, provavelmente vamos descobrir que a maior parte dos motivos que nos estressam são banais – batalhas nas quais não podemos tranquilamente escolher simplesmente não entrar. Até porque “vencer” (cortando a frente do carro que nos ultrapassou no trânsito ou respondendo no mesmo tom a alguém que disse uma palavra ríspida, por exemplo) não vai melhorar em nada nossa vida.

Mas o fato é que tendemos a reagir aos agentes estressores, do dia a dia – congestionamentos, divergências com parceiros ou colegas, pressões profissionais e contas a pagar etc. – como se fossem predadores que ameaçassem nossa vida. Não raro, nos sentimos tão tomados pelos problemas e pela sobrecarga a ponto de adoecer e nos esquecemos de que nem sempre é preciso suportar passivamente (ainda que reclamando, esperneando e mesmo assim sem sair do lugar) o peso das sobrecargas que povoam nossos dias e nos levam à exaustão mental e emocional. Nesse caso, recorro a um pouco de liberdade poética para uma reinterpretação do que poderia ser entendido por lutar ou fugir. A luta ganha conotação mais ampla, quando nos antepomos ao que oprime e buscamos saídas por meio de uma reflexão crítica, inteligente e objetiva a respeito da própria vida.

Um exemplo banal: o trânsito provoca cansaço, mau humor, e disso advêm sintomas físicos, sabemos. Mas aí vem a questão por que dar a essa situação (que, em si, decididamente não podemos alterar) lugar tão importante? É possível alterar o horário de sair de casa, o trajeto, até mesmo a cidade? Principalmente, é possível mudar a atitude? É o caso de olhar a fera nos olhos ou então, se for o caso, fugir, sim, por que não? Mas de forma consciente, sabendo que mesmo nas ocasiões em que parece não haver margem de manobra, ainda há alguma chance de autonomia. Às vezes menos do que gostaríamos, é verdade, mas felizmente as circunstâncias não são estanques, mudam, e, com elas, se transformam as relações consigo mesmo e com outro. Mesmo para o estresse supremo, causado pela vivência do horror, da violência, ou pela morte de alguém querido, há a possibilidade de não se furtar ao doloroso processo de sobreviver. E, apesar do sofrimento e do cansaço, descobrir que é possível reinventar-se e criar brechas de afeto e prazer.

por: Gláucia Leal / Estadão  

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