18
agosto

AMOR PERFEITO? SÓ NOS JARDINS.

O único amor perfeito que conheci ao longo de minha vida foi nos jardins. E uma florzinha miúda que tem uma beleza simples e que requer muito cuidado. O outro amor perfeito só existe nos livros e nas histórias das fadas.

O mito do amor romântico parece fortalecer nas culturas o desejo que o ser humano tem de encontrar no seu mundo exterior a solução para suas imperfeições. E quase uma camuflagem. Desejosos de curar as consequências de nossas precariedades, passamos a buscar nas coisas, nas pessoas e nas situações, o remédio que nos sanaria de nossas incompletudes.
Como já falamos, o mito foi fortemente explicitado e in-corporado nas culturas por meio de histórias que narram sagas de amores impossíveis e, por isso, perfeitos. O amor perfeito é sempre o amor impossível, o amor inacessível, o amor que não corresponde à realidade e que só se realiza nas obras de ficção.
Primeiramente, valeria a pena voltar nossa atenção ao próprio conceito de perfeição. Esse conceito está muito presente na cultura grega. No contexto da reflexão grega, a perfeição é colocada como fim a que se destina o movimento do artista. A perfeição não é o caminho, mas a chegada. Dessa forma, o conceito não favorece o movimento, mas, ao contrário, sugere lugar já alcançado, chegado. É perfeito porque é irretocável, pronto. É perfeito porque já está definitivamente estabelecido e já não necessita de qualquer forma de intervenção ou retoque.
Aqui nasce o grande problema que queremos analisar. Veja bem, diante da vida, que não é estática, tal conceito apresenta-se como amórfico e pouco sugestivo. Diante da ideia de que para ser perfeito é preciso que já esteja pronto e irretocável, nasce uma contradição com a existência, que é processo constante de feitura e re-feitura.
A partir do conceito grego de perfeição, nenhuma pessoa pode ser considerada perfeita, afinal, ninguém está pronto. Essa verdade fere profundamente a expectativa de todos os que esperam encontrar pessoas perfeitas para estabelecer suas relações humanas. Nós, que sentimos regularmente na carne as consequências de nossas imperfeições, e não temos outro jeito de sobreviver a elas senão assumindo o movimento da vida como oportunidades contínuas de superação e aperfeiçoamento, quando nos encontramos com os outros, precisamos considerar que eles estão vivendo o mesmo processo que nós.
Somos imperfeitos, mas não estamos condenados a ser vítimas de nossa imperfeição, uma vez que a beleza da vida está em descobrir o movimento que pode diminuir as consequências do que em nós é imperfeito. O outro também não está condenado a morrer com seus defeitos. Dessa forma, num encontro de imperfeitos, nasce um desejo concreto de juntos lapidarem suas humanidades, na busca de uma harmonia que podemos chamar de amor.
Mas nem sempre o que ocorre é isso. É quase um movimento natural na vida humana a busca pelas pessoas perfeitas que venham suprir nossas imperfeições. O poder do mito é que move essa procura. Inconscientes ou não vivemos uma busca desonesta de pessoas que correspondam às expectativas de nossas projeções e idealizações. O que temos diante de nós é uma contradição da existência. Não somos perfeitos, mas queremos realidades perfeitas. O mito nos retira do contato com a realidade.
A partir dele, as pessoas passam a procurar realidades ideais. A pessoa ideal para casar; o lugar ideal para morar; o lugar ideal para trabalhar, e por aí segue uma lista interminável. E o conflito se estabelece ainda mais quando percebemos que pessoas que se sabem imperfeitas estão constantemente buscando pessoas e realidades perfeitas.
Aqui está a força da inadequação. As pessoas, no afã de encontrarem a pessoa ideal, a pessoa perfeita, começam a imaginar. Olham, mas não vêm, porque estão motivadas a enxergar só o que estão imaginando. Esbarram, mas não encontram, porque o encontro requer autenticidade. E justamente aqui que nascem os sequestros.
É deste “não encontro” e deste “não ver” que as pessoas começam suas relações. Começam a projetar umas nas outras suas necessidades e lacunas. Aos poucos, vão sendo preparados os cativeiros dos condicionamentos. Esses cativeiros se estabelecem a partir de pedidos de mudanças de comportamentos, atitudes e até mesmo de mudanças estéticas. O que percebemos é uma tentativa de adequação entre o que o outro sonhou com aquilo que verdadeiramente ele encontrou.
Desse encontro nascerão duas condições: sequestrado e sequestrador. O que determina os lados da mesma tragédia é a capacidade de rendição e de domínio de cada um. Há pessoas que têm uma facilidade imensa de dominar e determinar as relações que estabelecem. Há outras que são facilmente determinadas. Consciente ou não, a pessoa parece inventar a outra. E inventar é uma forma de estabelecer cativeiros, uma vez que a “disposição de si” fica ameaçada. Aquele que imagina retira do imaginado o direito de ser o que é. Imaginar é um jeito de negar a realidade. Sobrepõe-se à personalidade uma espécie de máscara, que poderá se tornar definitiva, processo irreversível e causador de profunda infelicidade. Fernando Pessoa nos fala desta realidade em alguns versos do poema “Tabacaria”:
                                             Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era
E não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pregada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó
Que não tinha tirado.
Deitei a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
Eu vou escrever esta história para provar
Que sou sublime.
O universo da reflexão do poeta é riquíssimo. O personagem que reconhece a “não vida” que a máscara lhe conferiu reassume, ao final da estrofe, a condição de “ser sublime”. Tornar sublime é o mesmo que purificar e, para que a purificação aconteça, é mister que reconheçamos o que é precário, o que necessita de sublimação. Para o poeta, retirar a máscara é assumir a precariedade que o falseamento lhe trouxe. A autenticidade lhe confere o direito de reassumir a vida, ainda que ao final.
O poema nos ajuda a pensar melhor. As máscaras são as concretizações dos sequestros. Elas atestam que o processo de negação do ser chegou ao seu ponto alto. “Fiz de mim o que não soube e, o que podia fazer de mim não o fiz.” O roubo foi tão profundo que o outro, incapacitado de resgatar a parte roubada, viu-se obrigado a revestir-se de personagens e de máscaras. “Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.”
Veja, há uma permissão. A não autenticidade abre portas para os equívocos. Os outros nos imaginam e nós permitimos a imaginação e suas inadequações. Quando essa relação se prolonga no tempo, as pessoas envolvidas se fragilizam muito, porque em ambas há o processo da negação do ser. Aquele que imagina de alguma forma também se torna refém de sua projeção.
Passa a querer e desejar o que não existe, o que não é real. E, quando desejamos dizer a verdade, nem sempre temos a possibilidade. “Quando quis tirar a máscara, estava pregada à cara. Quando a tirei e me vi ao espelho, já tinha envelhecido.” Os mascarados sofrem sozinhos. É um processo doloroso que atinge a muitos. Conviver com quem optou pela inautenticidade causa uma infelicidade profunda. O gasto de energia para a mentira é muito mais elevado que para a verdade. Viver de projeções que não podem ser adequadas à realidade é o mesmo que não viver. A experiência das projeções nos coloca dentro de um mundo sem sustentação; e mundo projetado não é mundo que realiza, nem faz realizar.
Trecho do Livro ”Quem me roubou de mim?”
Publicado em ARTIGOS, AUTOCONTROLE por Rodrigo Oller. Marque Link Permanente.


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