22
agosto

A VIDA SOB O FOCO DO DESEJO.

O desejo perpassa todas as nossas relações. É por isso que podemos dizer que a duração de uma relação está diretamente ligada à permanência do desejo. O que nos faz querer estar ao lado de alguém é o desejo. Não o mesmo desejo de sempre, mas o desejo que se modifica à medida que vivemos o processo natural da vida.

Retomemos a reflexão de Martin Buber. O que gostamos no outro é o que sobra do encontro que realizamos com ele. E a terceira pessoa, é o que nasce do encontro. Podemos dizer que esta terceira pessoa, que chamamos de “nós”, quando desejada, tem o poder de nos fazer permanecer.
A permanência nas relações sinaliza que o desejo está vivo, que ele foi mantido, que não morreu com o passar do tempo. Desejar é uma constante na vida humana. Vivemos em torno dos nossos desejos. Eles nos movem para irmos além.

Existem desejos temporários. Passar no vestibular, por exemplo. Depois de alcançado, ele se transforma em desejo de fazer a faculdade. Depois da faculdade, vem a especialização, o mestrado, o doutorado, a profissão. Um desejo ocasiona o outro.

Quando falamos de pessoas e suas relações, de alguma forma estamos falando também de desejos temporários e desejos permanentes. E nisso há uma questão fundamental. Relações duradouras são aquelas que o desejo sustentou, isto é, ainda que tenha um desdobramento do desejo, percebemos
existir um detalhe fundamental, um foco que permanece. O outro mudou, foi transformado pela vida, mas ainda continua sendo o foco do desejo.
A relação é duradoura à medida que o foco do desejo permanece. Os desejos até foram modificados, mas o foco permaneceu, e por isso o outro não quis ir embora. É interessante identificar que a permanência do desejo está intimamente ligada à preservação do mistério e da sacralidade da relação.
Preservar o mistério não significa guardar segredos, mas consiste em manter a reverência que não permite a banalização. O outro é mistério que merece ser preservado. Por mais que eu o conheça, jamais terei o direito de dizer que já sei tudo sobre ele, porque sei que ele está em processo de feitura. Ele está se fazendo pessoa.
E porque sabemos que o outro está sempre em movimento, precisamos viver o constante processo da conquista, ainda que nossas relações já tenham ultrapassado a idade de cinquenta anos. Preservar o mistério é continuar conquistando, mesmo depois de trinta anos de casados. Essa reflexão nos liberta dos malefícios do mito do amor romântico, onde os personagens sempre perfeitos vivem felizes para sempre. Não, a vida não é um conto de fadas, mas nem por isso estamos privados da felicidade que eles nos sugerem.
Precisamos entender que não existe ser humano ideal. O que existe é o ser humano certo. O ser humano ideal não possui defeitos. O ser humano certo tem defeitos, qualidades, e na soma de tudo é um resultado em que você resolve acreditar. O grande equívoco dos nossos dias é estabelecer as relações humanas a partir das substituições. Queremos que o outro seja a concretização humana de nossas idealizações. Hoje nos satisfaz e amanhã não mais. Trocamos. Tentamos de novo. Voltamos a trocar. As paixões são avassaladoras, mas os desencantos também. E assim vamos colecionando
relações e os seus consequentes estragos.
O que podemos identificar nessas paixões é que as pessoas não são focos de desejo, mas se limitam a serem focos de prazer. O prazer é passageiro, mas o desejo não. Quando o outro cumpre o papel de ser o objeto do meu prazer, eu o reduzo à condição de coisa. Essa “objetificação” já se caracteriza como sequestro. Há uma subjetividade sendo desconsiderada, uma vez que o outro foi reduzido à matéria de minha satisfação temporária.
Trecho de Livro ”Quem me roubou de mim” 
Publicado em ARTIGOS, AUTOCONTROLE por Rodrigo Oller. Marque Link Permanente.


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